No primeiro dia do ano, a Igreja concluiu a Oitava de Natal celebrando o título mais importante da Virgem Maria: “Theotokos”, mãe de Deus. Esse título foi confirmado na tradição da Igreja no Concílio de Éfeso em 431 dC. Nossa Senhora apresenta um papel único na história da salvação porque a sua liberdade foi instrumento para a salvação da humanidade. A nenhum de nós Deus pediu permissão para se encarnar e nos salvar, mas a liberdade da humanidade em acolher a salvação objetiva do mundo ocorreu por Maria Santíssima. Com o “sim” (“fiat!”) dela foi possível que o ser divino comungasse com o ser humano e que se cumprisse a promessa de que o Verbo se faria carne e habitaria no meio de nós para nos salvar da morte dos nossos pecados.

A salvação aconteceu porque Jesus, que é filho de Deus desde toda a eternidade no céu, tornou-se, no natal, filho de Maria, filho do homem (humanidade, e não sexo masculino). Maria, que livremente aceitou a missão de mãe de Deus, é, portanto, uma parte essencial na história da salvação.

Então, se, no natal, comemoramos com alegria que Deus nos amou tanto que nos enviou a salvação, também devemos comemorar que Maria, e só ela dentre todas foi a escolhida, aceitou essa salvação em nome de toda a humanidade. Se Maria tivesse recusado os planos de Deus para sua vida, se ela não tivesse se posto como serva do Senhor e deixado ser feita a vontade de Deus, se ela tivesse dado um simples “não” àquele chamado, não teria ocorrido a encarnação e consequentemente a salvação da humanidade e já não teríamos mais esperança de alcançar o céu e a comunhão entre a humanidade e Deus.

Importante entender que o título de mãe de Deus não significa que Maria fosse mãe da natureza divina. Um ser humano só pode gerar e dar a luz a um outro ser humano e não outro ser de natureza distinta como um carneiro, um pássaro ou Deus. A Igreja sempre acreditou que Maria é mãe da pessoa, não da natureza. Não se trata, pois, de perguntar “do que Nossa Senhora é mãe”, mas “de quem”, ao que cabe a resposta: da segunda pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo de Deus que se fez carne a partir da carne de Maria sua mãe.

Foi ela quem carregou a nossa esperança e salvação no útero por nove meses como primeiro sacrário, enfrentando a reviravolta que aquela entrega aos planos de Deus significou em sua vida. Foi ela quem primeiro foi perseguida e fugiu para o deserto por Jesus, quem amamentou Jesus, quem cuidou dele por toda infância, quem o educou junto com São José, quem primeiro recebeu as graças e ouviu os ensinamentos. Foi por ela que ocorreu o primeiro milagre de Jesus, antecipando sua vida pública e a obra de salvação. Foi Maria a primeira pessoa que amou Nosso Senhor Jesus Cristo e com um amor mais pleno que qualquer um de nós, porque era um amor não só de filha, mas de mãe, de serva, de amiga, de professora, de sacerdotisa… de entrega total no plano espiritual e humano.

É ela quem justifica o título que Jesus recebe na Bíblia de “filho do homem”. Se Jesus é chamado oras de filho de Deus e oras de filho do homem é porque, em verdade, Ele assumiu uma dupla natureza, contendo em si o divino e o humano. Sendo igual a Deus e igual aos homens em tudo, menos no pecado. Esse “homem” é a humanidade, que, no caso concreto de Jesus, é a matéria da Virgem Maria. Esse mistério é o centro da nossa salvação, porque somente quando Cristo for tudo em nós haverá a dupla natureza que é o grau mais elevado de santidade já no céu.

Por meio dela foi feito o caminho oposto da perdição. Se a ferida mortal do pecado entrou no mundo por meio de uma mulher chamada Eva, virgem, imaculada, prometida a um homem (Adão) e visitada por um anjo (satanás, a serpente), a redenção e o amor que cura nossa ferida entrou por meio da mulher que pisou na cabeça da serpente. Uma mulher chamada Maria, virgem, imaculada por desígnio divino, visitada pelo anjo Gabriel e prometida a um homem (José).

Maria é humana, mas, como dito por São Tomás de Aquino, a dignidade de sua maternidade é divina e infinita. Em todas as Aves Maria que rezamos nós lembramos essa verdade. Comecemos, portanto, o ano novo louvando a Deus por sua obra fantástica na humanidade por meio da Virgem Maria, Nossa Senhora. Porque ele nos amou tanto que não quis Maria só para sua mãe, mas nos deu, na cruz, uma mãe perfeita, amorosa e exemplo máximo de entrega. Que, neste ano, amparados no exemplo de nossa mãe, busquemos dar o nosso sim a Deus e deixar a salvação, agora subjetiva, entrar em nossa vida.