“O Verbo se fez carne e habitou entre nós!”­  Jo 1,1.14

O natal é uma data tão importante que toda a história humana se divide em antes e depois do natal. Todo cristão deve aproveitar esse tempo favorável para refletir sobre o grande mistério da encarnação, que é o primeiro e por excelência milagre natalino. Para entendermos a verdadeira dimensão dessa festa se faz necessário pensarmos para além dos símbolos que foram sendo agregados ao longo do tempo e chegar à fonte, à essência daquilo que é o motivo de nossa alegria.

O Deus único e onipotente criador de todas as coisas, responsável por sustentar tudo o que existe (todas as coisas visíveis e invisíveis) no ser, quis fazer-se humano. Nós sozinhos jamais mereceríamos o céu, nem teríamos como alcançar o amor de Deus e merecer a eternidade em comunhão com esse amor. Se a natureza de uma bactéria não permite que ela comungue com o amor humano, muito menos a nossa natureza humana permitiria que nos elevássemos à comunhão com o amor divino. Sabendo disso e nos amando infinitamente, Deus vem participar da natureza humana por meio da segunda pessoa da santíssima Trindade: Jesus Cristo.

Jesus é o nome dado à criança pelo anjo Gabriel e significa “Deus Salva”, o que já indica a natureza divina de Jesus e a sua missão de nos salvar da morte fruto de nossos pecados. Aos pastores que estavam nos arredores de Belém, o anjo anuncia que “nasceu o salvador, que é o Cristo e Senhor”. Cristo significa “o Messias”, “o ungido”. Ele é o cumprimento da promessa de Deus ao seu povo e a realização de tudo o que foi preparado no antigo testamento.
Essa verdade merece uma reflexão profunda, sem pressa, saboreada, até que possa nos encher de uma profunda gratidão, iluminar a nossa inteligência e convidar nossa vontade, abrir os nossos olhos, mudar a nossa vida, e infundir o espírito natalino em nós permanentemente. A anunciação a Nossa Senhora é o primeiro momento da história em que Deus se revela à humanidade como Trindade. No antigo testamento, Deus já havia revelado ser um só, que sustenta todo o ser do universo, ou seja, que tudo, inclusive cada um de nós, só existe porque Deus está pensando em nós a todo momento. A plenitude dessa revelação, contudo, só é alcançada no novo testamento. Um só Deus, natureza divina, é uma relação de amor de três pessoas: o amante (Pai) amando o amado (Filho) e sendo amado de volta com o amor (Espírito Santo).

Deus quis nos amar com um coração humano, com todas as dificuldades da condição humana. Ele nos mostrou como cada um de nós é capaz de um amor extraordinário se permitirmos a ação da graça, se ouvirmos o chamado constante do Pai, imitarmos o filho e recebermos o Espírito Santo. Antes poderíamos duvidar da nossa capacidade de amar e pensar que tudo seria muito fácil para Deus, pois afinal Ele é perfeito, o que poderia reduzir aos nossos olhos o mérito do amor divino. Mas a sabedoria de Deus nos afastou por completo essa tentação. Ele me ama e ama você com o coração divino e com o coração humano. Jesus é filho de Deus e filho do homem (humanidade, mais especificamente Maria, Nossa Senhora) e assumiu a nossa condição humana em tudo menos no pecado. Por toda a sua vida, desde o útero de Nossa Senhora, enquanto bebê nascido em uma humilde manjedoura, quando criança ensinando no templo, durante seus anos de santificação da vida cotidiana, já nos anos de sua vida pública e finalmente passando pela paixão e morte na cruz, em todos esses momentos, sem exceção, Jesus nos amou com um coração humano e hoje continua a fazê-lo no céu. Ele levou a humanidade para o seio da relação de amor da Trindade e nos mostrou que lá é o nosso destino, lá se encontra o sentido da nossa vida.

Todos os símbolos de natal se relacionam de alguma forma com esse mistério. Os presentes de natal, por exemplo, simbolizam os presentes ofertados pelos Reis Magos a Jesus: ouro (a realeza), incenso (a divindade) e mirra (a humanidade). A estrela, na árvore de natal, é a estrela de Belém que nos guia para Jesus. O anjo é São Gabriel. Papai Noel é São Nicolau, um bispo da Turquia marcado por sua caridade, principalmente com os mais pobres, e por sua afinidade às crianças. Nossa fé nos convida a um novo olhar sobre esses símbolos, superando a superficialidade e o comercialismo. Devemos buscar o que dá sentido e coesão a todos esses símbolos e ao que é a essência do natal: um encontro com Deus que, mesmo conhecendo toda a minha miséria, me amou por primeiro, que já se fez carne, viveu todas as minhas dificuldades e morreu por mim, tudo sem nunca deixar ou se arrepender de me amar.
Diante dessa realidade e dessa promessa, como não nos enchermos de alegria ao celebrarmos o natal? Como não pregarmos a boa nova? O único Deus todo poderoso se fez um bebezinho indefeso por amor a mim e com isso Ele mudou a minha história. Eu merecia a morte, mas Ele quis morrer por mim, em meu lugar, porque o que deseja para mim é a vida em abundância. De posse dessa verdade, como não amar de volta?